sábado, 26 de outubro de 2013

MANIFESTO DA “CURA” 496 ANOS DEPOIS DA “LOUCURA”

- Nota
Na elaboração desta análise crítica sobre a obra “Elogio da loucura” de Erasmo de Rottherdam, fomos levados a identificar uma personagem paralela à loucura que denominamos “cura”, estabelecendo uma visão crítica sobre a atualidade no que diz respeito à sanidade mental.

Desta forma a “cura” analisa a si mesma através do seu autor e sua evolução desde quando se compreendia como “loucura” promovendo devaneios como forma de mudança, mas permanecendo estática, adoecendo a humanidade na máxima realização de liberdade do ser humano, tendo portando que transformar-se em “cura” numa forma de responsabilizar-se pelo passado para constituição de um futuro, ou seja, a “cura” é uma evolução da “loucura” rumo a uma nova era transicional que só alcançaremos através dela, apresentando-se na metade do texto em diante na mais pura reflexão filosófica da existência.

Tentamos nos posicionar o máximo como a personagem “cura” num paralelo a personagem “loucura” de Erasmo de Rotterdam, constituindo trocadilhos numa expressão de criatividade e percepção aguçada, além de estabelecer uma "estética do plagio" através do dialogo com outros teóricos, pensadores e com os conteúdos desenvolvidos em sala de aula, no que diz respeito à psicologia fenomenológica existencial, enfatizando Keirkegaard, Heidegger e Sartre.

- Análise
Em meio a uma época em transição da era pagã feudal europeia para um período de Renascença, pretendia-se resgatar os pensamentos e valores da antiguidade clássica que através da tragédia representavam o conhecimento da natureza divina, O homem como "medida de todas as coisas" se opõe ao pensamento medieval, onde é Deus a medida de todas as coisa; tendo por tanto que agir de acordo com as normas e padrões estabelecido por ele, numa repressão aos instintos naturais das experiências pessoais da qual se extraia o conhecimento na antiguidade clássica.

Erasmo de Rotterdam teve uma carreira religiosa em ascensão chegando a secretário do bispo de Cambrai obtendo permissão para ir estudar em Paris, onde recebeu o grau de doutor em teologia. Conhece à fundo a instituição papal na qual, ao decorrer da sua carreira, observa uma tamanha hipocrisia no que diz respeito ao comportamento imposto por Deus, através do papado, e o que realmente regia à instituição. 
Como reprimir os instintos se é ele que nos move? - se pergunta ele. Passa, então, toda sua carreira religiosa observando o comportamento dos seus superiores, fazendo analogias com o que encontrava em si mesmo como reflexo, numa percepção reveladora da verdade; daí a necessidade de se resgatar o pensamento grego. Esse método de analise da ideia será descoberto mais tarde por Husserl. 

Tais observações, testemunhos, vão dando asas a Erasmo para uma compreensão mais humana da vida e consequentemente da realidade a sua volta, lavando-o a se preocupar em reformular alguns textos sagrados num resgate a natureza humana. Porém, só encontrará real liberdade para prosseguir com suas ideias após a dispensa papal da obediência aos costumes e estatutos do Convento de Steyn. 

Eis, então, que surge: “Elogio da Loucura”, como responsabilidade perante a coragem de sua liberdade de escolha na reformulação dos conceitos humanos, com a qual põe a própria “loucura” para criticar o comportamento dos homens, numa preservação de sua pessoa a quem pretendia atingir.

A “loucura” denuncia no homem à negação dos instintos como experiência pessoal para se extrair a verdade. Tal feito seria impossível uma vez que os instintos cabem a todo género humano. A negação da loucura resultaria em um comportamento, ao menos uma vez, diferente do que é imposto e representado pela Igreja e o Estado através das leis de Deus. Poderia o homem suportar a si mesmo em seu comportamento cotidiano sem uma dose de loucura? Claro que não.

Os sábios para a “loucura” não passam de pessoas pessimistas em relação à vida; acostumados a pensarem desde cedo sobre o ponto de vista do que leem, perdem ligação com sua essência tornando-se velhos e insuportáveis como possuidores supremos da verdade e privam-se da loucura num ato de repulsa à ignorância. E apesar de saberem da verdade não estão de acordo com o processo da natureza no que diz respeito que há algo de não-ser em si.

Parece-me que para todo momento de transição, aqui no caso, feudalismo para o capitalismo, é preciso inspirar nas pessoas seus instintos para que possam extrair deles uni novo sentido à existência através das experiências pessoais que jamais se repetem, ou seja, um estágio estético. E para que esse estágio não caia em fugacidade a pessoa se depara com a ética, que seriam as leis sociais e religiosas já impostas, tornando-se livre nos limites estabelecidos, cabendo à fé em si mesmo o passaporte para a liberdade suprema numa aceitação da lei ética e social sem perder suas vivências autenticas numa autoafirmação moral perante sua liberdade.

Bom. Nesse caso Erasmo através da “loucura” inspira um estágio estético como forma das pessoas se libertarem dos costumes pagãos da época, preocupando-se logo de imediato em reformular as escrituras sagradas para uma nova ética que colocaria a sociedade em uma nova organização de fé e autenticidade moral. Portanto, não hesitando em clamar a “ignorância” e a “felicidade” como algo louvável em oposição à sabedoria.

Há nas ideias de Rotterdam, através da “loucura”, uma espécie de culto à criança eterna, onde a vida seria mais feliz se nos entregássemos aos nossos instintos e não tomássemos consciência das coisas em si. Pois, não sabe ele que é através dos instintos que o homem adquire a sabedoria também? Tudo bem que para uma época em transição é urgente que as pessoas sejam loucas e se entreguem as suas experiências pessoais como um grande salto, convictas no seu ponto de vista, na opinião.

Mas, como evitar a queda na tomada de consciência sobre a morte!? Até quando a loucura suportaria sustentar sua infância e esconder o seu lado obscuro, o do crescimento com sua dor e principalmente o perecimento no nada? Viver o não-ser, porém sem consciência de sua existência na mais pura inocência de que um dia a vida não vai acabar, a isso eu chamo “loucura”. 

E a “loucura” como ver a morte? 
Eu respondo: a “cura”!

Essa morte faz parte da consciência do “não-ser” no homem, “ser” e “não-ser” fazem parte do mesmo contexto do género humano, pulsão de vida e pulsão de morte. Ou seja, ao mesmo tempo em que sou livre não o sou também porque a morte é inevitável. Diante de tal absurdo o homem tratou logo de dominar os fenómenos da natureza como uma forma de controlar o seu destino e se eternizar no “ser”, numa negação inconsciente do “não-ser”, de uma negação da morte.

A estética burguesa atingiu, aos poucos, valores universais que inconscientemente a ansiedade do destino de morte foi aliviada, mas, começaria a partir daí toda uma luta contra a natureza num processo de eternização da espécie humana na negação do “não-ser”; sendo que para isso, o estágio estético foi mantido até hoje, promovendo uma eterna aurora infantil numa sociedade sem ética e consequentemente sem fé, onde o que consumimos são, nada mais nada menos, que "super-brinquedos" que tem como fim aliviar a angustia diante da insignificância do “ser” frente ao nada na imagem do "adulto".

Percorremos o lado luminoso do “ser” através da “loucura” com Rottherdam, e agora será inevitável que nos tornemos sábios na tomada de consciência do lado escuro do “não-ser” que teremos de encarar a “cura”.

- L ou Cura, 
“Faz tempo que já deixei de ser criança. Na idade media eu voz divertia com minha criança, mas, agora a selva é outra. Ela tem luzes e pontes que quase tocam no céu. É por isso que há muito tempo deixei de ser “loucura”. Agora só a uso para construção de armas e enquanto isso voz proporciono a imagem de um velho sábio; porém com muita diferença no que diz respeito a pensar só sobre o pensamento do que estou lendo, isso me tornaria cega para o menino que está sempre renascendo.

Sou o deus Dioniso a andar pelos corredores com o corpo livre na pele daquele que teve coragem de ser menino. Só que agora não há mais tempo para brincar, nem pedir desculpas, é preciso ser forte para manter o reflexo polido de ser o que todo mundo gostaria de ser, mas, por vergonha e repulsa perante o ato de tocar, volta-se numa atitude violentamente egoísta perante a vida na terra. 

A culpa filogenética do incesto no ato de tocar. Por isso sou a CURA e lhes digo que só através do resgate do menino perdido no falso adulto, os ditos homens se tornarão homem.

Resistam até onde poderem aguentar com suas esquizofrenias diante de algo que já se sabe, mas insiste em negar: o copo infantil, fantasmático! - Oh! Mas, o corpo infantil é bissexual! Iram dizer vocês. Pois é isso mesmo; a androginia! O olhar para trás num resgate ao corpo, como suporte à queda, nem que para isso eu tenha que aceitar nossa contrassexualidade. A isso eu chamo coragem!

À agressividade e à sexualidade como potência impulsão para frente, destrói o muro e ver a verdade; triste visão: o nada! Teremos que reconstruir o mundo e para isso, vou refletindo em mim, causando uma espécie de repulsa às suas pulsões, fazendo-me cada vez mais sábio e criativo no processo de cura da humanidade. E sabe para que as armas? Para me proteger do inimigo que ninguém ver, só sente e sem perceber pensa por nós.

Enquanto a criança inventa, o velho pensa; procura as passagens mais estreitas e vai se instalando aos poucos; parece estar tudo parado, mas, eis que a teia vibra sem parar; vibra a “cura” no coração enquanto a culpa envenena a vibração. Não há mais tempo para a culpa; não se deve pedir desculpa por ser um inumano que abriga a “cura” no seu ente; não tenho culpa de Deus ser a essência da conscientização humana na temporalidade da existência.

Sou a mais pura conscientização humana lançada no tempo-espaço como seta apontada para o alvo que pacientemente espera saber atingir à essência a cada meio-dia e por do sol. Não há meios-dias sem crepúsculos, assim como não há futuro sem passado; só eu mesma, a “loucura”, no passado, para manter os homens na ignorância, na irreflexão, no esquecimento dos males passados protegendo-os da verdade. Mas, eis que chega a “cura” dos males com sua verdadeira verdade e revela aos homens à sabedoria através da criança.

Antigamente a sabedoria negava sua criança, sua criatividade, se era que tinha, abandonando-a junto aos estercos dos cavalos pensando assim alcançar berços esplendidos e dourados, cabendo à “loucura” intervir com "águas do esquecimento" e infantilidades mil na preservação da natureza humana. Agora a realidade é outra, será revelada a criança abandonada que envolto em tempestades, decepada, entre os dentes segura a primavera na imagem do novo homem.

Não se pode confundir entre o velho sábio que nega à natureza com o novo que é a própria natureza; assim como não podemos também confundir a “loucura” em seus devaneios com a “cura” na responsabilidade de escolha da liberdade. E assim a historia não mais se repetirá numa aceitação consciente do “não-ser” no “ser”, da morte em vida.”.

domingo, 20 de outubro de 2013

O QUE OS JOVENS ESPERAM DA SOCIEDADE

Sim, é verdade! Lembro-me bem o dia em que me disseram que eu teria que ser igual a eles, como uma espécie de herança que eu deveria herdar para dar continuidade as leis éticas, morais e religiosas da família. Uma herança filogenética, onde o passado está presente dando continuidade ao ideal medíocre do homem adulto, herdado por gerações a fio numa abertura para o controle científico que não desiste de nos coagir, estando por tanto a quatro gerações ou mais na frente dos adultos.

Pobres pais, ao herdarem suas heranças filogenéticas, achando que estariam preservando um tesouro familiar, não perceberam o jogo cientifico que os aprisionaram numa crise loba de juízo juvenil, onde o novo nunca existiu. Não quero dizer que a herança filogenética tenha que ser abolida em nome de um anarquismo promovedor de delinquência juvenil, mas uma transformação dos valores éticos, morais e religiosos numa adaptação ao novo e, consequentemente, a abertura para uma vida mais humana.

Ah! O novo... O jovem pai, ao ver-se no espelho viu um falo e percebeu que sua existência era se enfiar em buracos e ditar leis, sendo um ser-para-o-outro numa continuidade da moral edipiana familiar, não sabendo ele, pobre coitado, que a verdadeira moral zomba da mora! O falo penetra então no filho como um juiz que dita a lei que proíbe o incesto, numa formação ditadora da personalidade. No entanto, afirma-se ai uma identidade paterna superior à tudo e a todos, agarrada a uma herança filogenética onde a lei no futuro se voltará para a proibição do filho se tornar homem numa oposição ao novo, visto que esse novo botará em risco sua identidade narcísica de homem-juiz-macho na qual foi constituída em cima de uma relação social-pessoal e não inumana.

Pobres adolescentes vivem num passado-presente, onde o futuro é agora, devido as heranças filogenéticas imutáveis herdadas pelos seus pais, impedindo ambos de perceberem o avanço tecnológico da ciência que personalizou os objetos e consequentemente objetou os seres humanos num triunfo ao controle, provocando assim a busca desenfreada e sem escrúpulos pelos objetos e, quem for pego roubando os objetos dos outros, vai para uma instituição onde lá permanecem trancados sem nenhuma atividade que lhes façam se perceber como "o novo", que tem muita coisa para ensinar e aprender. Portanto as instituições são uma armadilha do sistema de controle cientifico sobre o ser inumano. Não quero dizer aqui que a ciência positivista não é válida, mas todo mundo sabe a sua preocupação em objetar o ser humano para se ter o controle da variável.

O jovem espera da sociedade uma compreensão de um novo mundo, onde a troca de ideias é fundamental para se equilibrar essa humanidade tecnologicamente desumanizada, ele quer mostrar suas potencialidades, mas o mundo adulto fecha as portas para isso, obrigando-o a ser como ele e o mundo, quer que o adolescente seja, uma espécie de robô sem defeito de fabricação.

O jovem tem que perceber que o pai imaginário, o ideal, não está fora de sua psique, mas dentro dela na introjeção do pai simbólico, que, por sua vez, tem seu referencial no pai real. Porém, essa busca desenfreada pelo objeto, ilude o adolescente a procurar o ideal de um pai fora de si numa inversão de valores éticos, morais e religiosos, e como ele nunca acha esse objeto valioso então viola as leis até que apareça alguém e lhe diga o que é certo e errado, cabendo ao juiz esse papel de objeto, mostrando, além das leis, que esse jovem é o futuro pai ideal. Tendo que olhar para si como a composição de um novo homem cujo filho é o pai, que deve ir em frente sem olhar para trás, numa visão periférica do presente que constitui o futuro de um homem ideal.
           
Fica claro à percepção ilusória da objetivação do ser humano em projeção do ideal, onde o jovem nota-se como o processo de um novo homem resgatado no passado pela a introjeção do pai simbólico, cujo pai real foi para ele um referencial de um ideal que precisa ser alcançado dentro de si mesmo e consequentemente vendo o pai real como um homem comum, com seus defeitos e limitações impostas pela herança filogenética. A aceitação do novo em si mesmo que implica a passagem para a vida adulta sem perder suas ideias, aceitando as limitações sociais de maneira criativa e original.


Porém, muitos jovens insistem em não crescer por não aceitarem perder suas ideias em nome de uma imposição do mundo adulto perante a aceitação das heranças filogenéticas, ou seja, só entra no mundo adulto quem jogar fora o novo em nome do velho, gerando a assim chamada síndrome de Peter Pan.

sábado, 19 de outubro de 2013

INTELIGÊNCIA

A inteligência vem da capacidade de observar os detalhes do mundo real numa troca de informação com o mundo imaginário da psique através dos símbolos, no qual irá constituir uma percepção cada vez mais detalhada do eu e consequentemente do mundo ao redor. Essa capacidade de troca, entre esses dois mundos paralelos, forma um mundo simbólico cheio de criações numa linguagem unificadora.

A criação é um processo espontâneo na criança, que é uma característica da inteligência, no entanto o ambiente familiar em que ela se encontra irá estimular ou diminuir a capacidade de simbolizar o seu mundo perceptual numa integridade mais compreensiva do seu ser-no-mundo, sendo a leitura ou estorinhas contadas pelos pais um grande estimulo simbólico desenvolvedor da criação.

Porém, na medida em que as crianças vão crescendo se deparam com um mundo adulto já criado onde sua capacidade de simbolizar vai diminuindo espontaneamente visto que tudo já está pronto e é só desfrutar, tomando o pensar, criar e simbolizar cada vez menos importante em nome do imediato mecânico dos produtos tecnológicos num aprisionamento intelectual.

Já estando tudo criado só resta ao jovem colecionar o maior número de "ícones" possíveis, ou seja, absorver teorias cientificas ou objetos personalizados visto que: quem absorve a ambos é inteligente, quem absorve só os objetos é apenas normal e quem absorve as teorias sem abrir mão das simplicidades da vida é um louco.

Ser só inteligente não da direção à vida, torna-a rasa desprovida de significados onde as coisas simples da vida são descartadas em nome de uma postura adulta padrão sem um sorriso na mão, cheias de defesas onde a sabedoria é algo de intuição que a infância possuía. Sábio é saber para onde a vida caminha com a humildade de perceber que cada dia é diferente do outro numa consequente inteligência de ser o que é e não o que querem que você seja.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

À PROFESSORA

Aos seis anos de idade eu já tocava Beethoven, aos treze já tinha lido tudo e aos dezoito eu era o centro do universo, o sol com os seus raios límpidos embelezando o mundo com suas cores. Foi um voo inacreditável, a mais pura expressão do corpo em liberdade, um resgate ao corpo infantil através de uma sensibilidade que ultrapassou montanhas e vales numa compreensão profunda da alma humana sobrevoando o mundo, era o êxtase da criação. Mas como, todos os dias, o sol desce para iluminar o mundo inferior, eu cai.

Sou de uma família riquíssima e me formei em medicina, tenho bastante dinheiro para viver sem preocupação e não mais da profissão. É por isso que decidi não mais aceitar o crepúsculo e viver sempre voando, sempre menino. E é claro que para isso, diante da minha irresponsabilidade infantil, eu me viciei em estimulantes para poder manter meus voos numa fraqueza diante da queda. Estou acostumado quando minha euforia leva-me às alturas, ultrapasso o limite das pessoas proporcionando-as o êxtase sem medo do ridículo. A essa altura a bagunça está formada e por isso sou levado ao manicômio para baixar minha euforia como se eu estivesse perdido completamente a razão. Nos últimos vinte anos entrei e sai em mais de vinte manicômios.

Bom, mas vamos ao que interessa. Claro que eu não iria me jogar do telhado daquela casa, eu só queria o equilíbrio ao menos um instante já que eu não posso evitar a contingência da queda. Por um instante a morte é o equilíbrio, eu queria sentir o limite num instante, o voo rasante daquele avião num equilíbrio entre o voo e a queda, até porque no fundo eu sei que se pode encontrar o equilíbrio em vida, morrer e renascer em vida. Minha irresponsabilidade infantil diante da queda faz-me procurar um atalho no instante, mas sei que tenho um caminho à percorrer: aceitando a queda, ou seja, a morte em vida, o crepúsculo. Outra coisa também, que me compromete diante de vocês psiquiatras, é saber que Bach não se toca lento do jeito que aquele maestro estava tocando, aquilo me feria os ouvidos (risos),

A existência humana é constituída de dois pólos: vida, morte; ser, não-ser; luz, sombra; bem, mal; céu, inferno; dia, noite. O homem se viu diante da morte e não pode aceitar tal absurdo, tratou de estabelecer regras para todos como uma forma de reduzir a ansiedade diante de tal absurdo, a vida se transformou numa função de preservação do grupo, onde a vivência pessoal das experiências particulares se torrnam um vácuo para o indivíduo diante da indiferença do grupo, e para que eu não abandonasse minhas convicções pessoais teria que me autoafirmar moralmente frente ao grupo, implicando uma imposição preservadora da minha liberdade. Pois é assim que caminha a humanidade: nega a morte e se eterniza na preservação dos valores na autoafirmação ôntica do ser. 

Quem tem consciência para ter coragem de aceitar a morte na queda depois do grande voo para a liberdade numa fantástica percepção bipolar de si mesmo? Pois é, foi justamente por não me permitir à pretensão de uma autoafirmação moral, a qual me levaria em uma direção oposta aos valores do grupo, que eu preferi estar sempre voando feito um menino. No entanto, por mais que eu fuja da queda para preservar vocês e a mim, ela me é inevitável, tornando-se muito perigosa no que diz respeito ao voo prolongado, causando um distúrbio nos pólos devido a sua desarmonização, ou seja, voo muito alto, queda profunda – transtorno bipolar. Confesso o perigo que há em lidar sozinho com a pressão da queda profunda, isso me conduziria ao suicídio, que alias tem forte possibilidade de acontecer, até porque isso passa realmente pela minha cabeça. Agora vir a cometer o ato seria um problema.

Vou lhe contar professora o que realmente aconteceu comigo aos dezoito anos quando me tonei o centro do universo. Eu estava muito triste pela falta de sentido daquilo tudo que eu conhecia. Você sabe: Mestre em música clássica aos oito anos, conhecimento literário aos quinze, etc. Mas faltava sentido para aquelas maravilhas que eu havia aprendido, então resolvi procurar esse sentido no limite do instante, ver até aonde eu poderia ir. Tomei um frasco de aspirina, foi quando tudo aquilo que eu havia aprendido se deu sentido num jorrar de conhecimentos que vinha do fundo da minha alma, inundando o mundo com amor de criança. Eu era realmente o sol e por incrível que pareça depois desse dia eu nunca mais tive dor de cabeça (risos). 

Porém, anos depois veio à queda, encontrava-me diante da responsabilidade de preservar minha liberdade, mas fui covarde e passei a usar estimulantes para fugir da responsabilidade do destino que havia escolhido, preferindo ser sempre o pequeno polegar com minhas botas voadoras. E é por isso que eu fui para Elizabete. Não queria ser compreendido, mas sentir-me com os pés no chão. Ah! E aquela frase que eu falo no fim do filme para você: "Eu queria voar", foi o diretor que colocou em minha boca.


                                                                                                              
 Ass: Mr. Jones

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O ÓBVIO

"E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio"

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

UM ÍNDIO


Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul
Na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O QUE É A FOTOGRAFIA?


Desde que ela surgiu trouxe em suas margens a capacidade de manipular a realidade e fazer-nos enxergá-la como realmente é - uma ilusão. Ainda mais agora com a digitalização de tudo a fotografia encontra-se em seu devido lugar - a imaginação.